domingo, 31 de janeiro de 2010

Vício 2

Não é de todo verdade que não tenho me dedicado à literatura contemporânea. Andei degustando uma boa leva. Os ótimos estadunidenses (credo, escrever ou falar isso sempre me dá estranhamento, o que é o poder do condicionamento imperialista) Raymond Carver, Charles D'Ambrosio e Cormac McCarthy, dos quais meu favorito é Ray Carver, infelizmente morto precocemente aos cinquenta anos, em 1988, e encontro-me em vias de encarar o dito dificílimo David Foster Wallace ( li um conto dele em um número da Arte&Letra, excelente revista literária de Curitiba). Impressionante como a geração beat ainda influencia a literatura estadosunidense (ai, de novo!). Também tenho gostado dos espanhóis Enrique Vila-Matas e Rosa Montero, ambos muito bons. Mas acabei de voltar de uma pequena rodada de consumo literário com "A volta ao dia em 80 mundos", do Cortázar, nas mãos, e imediatamente mergulhei nos cronópios. É, resistir ao vício parece estar além das minhas forças...

domingo, 24 de janeiro de 2010

Vício

"Tudo era questão de decidir.E, embora já estivesse decidido, continuou pensando por pensar, escolhendo e dando-se razões para sua escolha, até que o amanhecer começou a esfregar-se na janela, no cabelo de Ofelia dormindo, e o seibo do jardim recortou-se impreciso, como um futuro que coalha em presente, endurece pouco a pouco, entra em sua forma diurna, aceita-a e a defende e a condena à luz da manhã."
Trecho extraído do conto "Os passos no rastro", de Julio Cortázar, publicado no volume de contos Octaedro, o meu favorito dele. Cara, queria muito saber como é que se consegue escrever assim. Juro que o amanhecer se esfregando na janela, no cabelo de Ofelia dormindo, me provoca uma sensação quase orgásmica, uma indescritível onda de calor carregada de endorfinas que se espalha pelo meu peito e me faz levitar por alguns instantes. Leio, releio, volto a ler uma infinidade de vezes e descubro porquê invariavelmente volto a isso quando deveria me dedicar um pouco mais à literatura contemporânea. É que sou viciada nesse barato.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

As mulheres e a filosofia

Há alguns dias, ouvi de um professor universitário pós-doutorado que o cérebro feminino talvez não possuísse a aptidão necessária ao desenvolvimento de reflexões longas e complexas, ou seja, não teria a capacidade de filosofar.Bem, qualquer um que frequente a seção de filosofia de livrarias e bibliotecas pode perceber a gritante disparidade entre escritores do sexo masculino e feminino, sendo estes últimos quase ausentes das prateleiras, e a explicação para esse fenômeno sempre me pareceu tão indiscutivelmente óbvia que estarreceu-me tomar conhecimento de uma outra, tão estapafúrdia. Naquela mesma noite, assisto a um programa na TV onde a filósofa e professora da USP, Olgária Matos, discorre brilhantemente sobre a temporalidade. Ouvindo-a, deliciada, começo a lembrar-me de todas os livros da Susan Sontag, da Hanna Arendt, da Camille Paglia, da Simone de Beauvoir e de outras inteligentíssimas mulheres que eu já lera. Em número, sem dúvida, elas perdiam mas absolutamente equiparavam-se em qualidade de escrita e de pensamente, e a teoria do tal professor deixou de provocar-me a ira para levar-me ao riso pois soava-me então quase como uma piada, algo mais ou menos tão patético quanto afirmar a inferioridade da raça negra, por exemplo. A exígua produção intelectual feminina, observada em maior grau na área da filosofia, deve-se única e exclusivamente a uma milenar trajetória de discriminação, exclusão e opressão que tentarei resumir a seguir.

Diferenças biológicas básicas entre os gêneros determinaram as atividades por cada um deles exercidas, desde os primórdios. Assim, a superioridade física masculina e a condição de maternidade inerente à mulher posicionaram-nos naturalmente dentro daquela que, segundo Rousseau, é a mais antiga de todas as sociedades políticas, a família. Desse embrião desenvolveu-se o princípio da cultura de gêneros e suas distinções, que evoluiu para a sociedade patriarcal fundamentadora das civilizações humanas. Seria injusto afirmar que todas as civilizações, ao longo da história, trataram a mulher da mesma maneira. Aquelas, porém, sobre as quais foi calcado o mundo ocidental como o conhecemos não foram-lhe particularmente benevolentes. Comecemos com a Grécia Antiga, berço da tal filosofia e também da democracia. Lá, as mulheres eram desprovidas do direito ao voto e de quaisquer outros direitos políticos e jurídicos. Passavam a maior parte de suas vidas confinadas em aposentos exclusivamente femininos chamados "gineceu".Sua educação restringia-se ao aprendizado das tarefas domésticas, nas classes mais abastadas um pouco de leitura, cálculo e música. Os casamentos eram todos arranjados e sua finalidade primordial era a reprodução, ainda que houvesse funçaõ econômica devido ao dote.A inferioridade da condição feminina na sociedade grega pode ser comprovada através da leitura da "Política", de Aristóteles, que afirma que o macho comanda a fêmea e que, apesar de ambos possuírem as diferentes partes da alma, possuíam-nas diferentemente.Segundo ele, a mulher possuía a faculdade de deliberar, porém sem autoridade plena.Na mesma obra ainda cita Sófocles:"o silêncio dá graça às mulheres, embora isto em nada se aplique aos homens". Até mesmo Platão, que não era exatamente um misógino, posto que defendeu a igualdade dos direitos entre homens e mulheres na "República", e no "Banquete", deu voz e inteligência a uma mulher, Diotima, mostrou dubiedade na questão ao afirmar, no "Timeu", que as almas são originalmente masculinas: as que vivem indignamente seriam destinadas a um corpo feminino e, se teimassem em se comportar mal, transmigrariam para o corpo de um animal.Ou seja, a mulher estaria no meio do caminho, entre o homem e o animal. Mesmo as tragédias gregas, que costumavam retratar personagens femininas menos caladas e de caráter mais relevante, invariavelmente associavam-nas à rebeldia e à irracionalidade, como podemos constatar por exemplo na "Antígona"e na "Medéia".Ainda assim, muitas mulheres ousaram subverter os padrões estabelecido na sociedade grega, tornando-se filósofas, poetisas, escritoras e educadoras. Asiotéia de Filos ensinava Física na Academia de Platão, Hipárquia de Maronéia foi famosa pela cultura e inteligência e escreveu "Cartas e Tragédias". Safo de Lesbos era poetisa e educadora, sua obra é lida e estudada até hoje. Muito pouco do conhecimento dessas mulheres foi preservado, seus nomes quase suprimidos da história da filosofia. Durante o período da dominação do Império Romano não houve mudanças, visto que em praticamente tudo os romanos plagiavam os gregos. Maria, a Judia, é considerada a fundadora da alquimia e a responsável pela descoberta do ácido clorídrico. Hipácia, também de Alexandria, era uma importante matemática e filósofa e foi brutalmente assassinada, através de linchamento, por fanáticos cristãos, já como uma prévia do que viria a seguir.
Na Idade Média, a dicotomia corpo/alma foi exacerbada ao extremo pela doutrina judaico-cristã, associando a mulher ao corpo, ou seja, aos instintos e à natureza, e o homem à alma, ou seja, à razão, à cultura e à inteligência. Desse modo, a mulher foi condenada à perpétua detentora do pecado original. Horroriza-me pensar no número de mulheres queimadas como bruxas nessa idade das trevas, algumas por tentarem expressar sua voz e seu pensamento, a esmagadora maioria pelo simples fato de ser mulher. A partir do Renascimento o que renasceu mesmo foi a intolerância e a subjugação feminina. Kant afirmou que "às mulheres inteligentes, só lhes falta a barba para expressar melhor a profundidade de espírito que ambicionam". Schoppenhauer escreveu um sem número de absurdas maldades contra as mulheres, entre elas que "a natureza sempre mostrou uma grande preferência pelo sexo masculino" e também que "as mulheres não possuem qualquer talento ou sensibilidade para a música, a poesia ou as artes". Nietzsche os seguiu no menosprezo ao intelecto feminino, e por aí seguimos nós, sem tréguas. Em 1991, após um século repleto de conquistas forjadas muito mais pelas necessidades do sistema capitalista e pelas consequências de duas guerras mundiais do que pela boa vontade dos homens, ainda na árdua luta contra o preconceito, as mulheres viram-se obrigadas a criar seu próprio prêmio literário. O Orange Broadband Literary Prize foi fundado na Inglaterra e destina-se à participação exclusiva de escritoras, que não conseguiam chegar ao pódio dos mais importantes prêmios: o Man Booker Prize, que em 33 anos reconheceu apenas 12 autoras (também, vide o título!), e o Costa Prize, que reconheceu apenas 2 desde sua criação, em 1985.
Pensando em tudo isso, concluo que é mesmo muito fácil para homens, e também mulheres, acreditarem nessa história de "cérebro" pois fomos massacrantemente condicionados para isso ao longo de milhares de anos. Vejo agora na TV um documentário sobre meninas de 4, 5 anos de idade vendidas a prostíbulos no Camboja e na Índia, e pouco antes havia lido em uma revista um artigo sobre a situação deplorável das mulheres no Afeganistão, impedidas de trabalhar e estudar. Em maior ou menor grau, na Europa, na Ásia, na África ou no Brasil, a realidade contemporânea nos mostra que "filosofar", para um enorme número de mulheres, realmente ainda constitui-se em uma impossibilidade. Mas certamente não pelo motivo que aquele professor imagina.