quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sobre dedos

Do torpor foi a dor que a tirou. Dor aguda e ardida de algo assim como um rasgo, talvez não exatamente um rasgo, mais pruma fincada, ou não exatamente, uma estocada, talvez. O que fosse, a aspereza pela mistura da pele com a areia piorou e a despertou do torpor. Era o dedo, percebeu ainda meio ao longe, um dos indicadores, nunca soube qual, mas era o dedo com certeza e abriu os olhos com o susto. Que espetáculo que é mesmo um céu noturno longe da cidade, imenso pedaço de veludo negro tão salpicado de brilhantes que era impossível contar, sempre tentava quando criança, adorava as viagens de ônibus e de carro onde podia colar a cabeça no vidro e ficar contando, mas depois de um tempo cansava e contava só as estrelas cadentes, sempre eram muitas, na cidade quase nunca via, na cidade o céu não é tão incrível e a gente também esquece de olhar. O dedo voltou a repetir o percurso e dessa vez soltou um gemido. Tentou se mover, mas sob o peso só conseguiu retesar o corpo e aumentar miseravelmente o ardor . Piscou várias vezes, os pontinhos cintilantes tavam dançando, centenas, milhares, nunca conseguiu contar, nunca conseguiria, todos juntos, o céu inteiro rodopiando num balé vertiginoso, insuportável, fechou os olhos.

- Eu sabia, eu sabia! Tu é virgem!
As palavras vieram de algum outro lugar que não o mesmo de onde antes tava sentindo a lufada quente cheirando a cerveja, entre o pescoço e a orelha, o peso tinha saído de cima dela tão rápido que elas vieram desse outro lugar antes mesmo que conseguisse abrir os olhos de novo.

- Eu sabia, eu disse pra eles que tu era muito novinha, que merda, acho que tu nem tem 15 anos nada, eu sou um otário mesmo.

Na última palavra já tinha conseguindo erguer o tronco, apoiada nas mãos. Ficou olhando o vulto se distanciar com decidida pressa na escuridão deserta da praia, até ficar muito pequenininho e sumir . Uma brisa balançava seu cabelo. Das suas costas vinham ruídos longínquos de gente e de música. Axé. Da sua frente o som fruído, suave, intermitente e interminável do mar, mas não dava pra enxergar ele, só escutar, estranho saber que diante da gente tá toda aquela vastidão assombrosa e sem fim de água e não poder ver, só ouvir. Passou a mão pelas coxas descobertas, a saia toda amarfanhada na altura da barriga. Ajeitou-a e dobrou os joelhos, tentando ficar em pé, mas o resultado do esforço foi uma onda violenta de náusea e um jorro nojento de vômito na areia, só líquido, limpando a boca com a blusa lembrou que não tinha comido nada desde a tarde e dos conselhos das amigas, a essa altura vãos, de nunca beber de estômago vazio. O chão, a areia, o céu, as estrelas, os ruídos de gente, de axé, do mar, o universo inteiro girava então deitou outra vez. Começou a sentir também uma dor horrenda na garganta, parecia que do nada, de repente, uma bola de tênis tinha ido se alojar ali, bem na sua garganta. E um aperto no peito. A dor crescendo, inacreditável, parecia que a bola ia explodir a qualquer momento. O que é que tinha feito de errado? Ou o que é que não tinha feito certo? Abriu os olhos, as centenas, milhares de pontos brilhantes continuavam lá mas agora trêmulos, tremiam além de dançar e percebeu que seu rosto tava todo molhado. A dor na garganta foi amansando, devagarinho, a bola de tênis diminuindo até virar uma bala entalada. Vontade ensandecida de levantar e gritar a plenos pulmões, com todas as forças pra praia inteira que sim, que tinha 15 anos sim, feitos há um mês, que tava comprovado lá na identidade, que bosta, mas em vez disso ficou ali deitada na areia, quieta, olhando pro céu. Tava tão escuro, nunca tinha lhe parecido tão profundamente escuro e as estrelas piscavam como nunca tinha visto, com uma luz extraordinária, centenas, milhares. Não, na cidade não é tão incrível. Na cidade a gente esquece de olhar. Uma, duas, três, quatro, cinco...

terça-feira, 11 de maio de 2010

Carta de um hipocondríaco


Desconheço, a priori e com exatidão, quando foi que começou. Talvez tenha sido ainda no ventre de minha mãe, não constatou a medicina moderna, através de avançados métodos de investigação, a capacidade de percepção e assimilação dos fetos às influências da vida extra-uterina e sua precoce manifestação de características da personalidade? Ou talvez tenha sido um pouco mais tarde, nos primeiros anos da infância, quando somos ainda tão vulneráveis e os fatos mais ordinários da vida , como o desabrochar de uma flor ou um pinto saindo da casca, são capazes de causar-nos a mais vívida das impressões. O certo é que por volta dos seis anos de idade uma significativa quantidade de sintomas já paulatinamente se apresentava, dando mostras do que viria a tornar-se minha vida adulta.
Sou filho único, tendo meu pai abandonado o lar quando eu contava apenas dois anos de idade para nunca mais esboçar o menor sinal de vida. Após esse ocorrido, contou-me minha mãe que comecei a temer terrivelmente o escuro, só conseguindo dormir se ela deixasse ininterruptamente aceso o pequeno abajur amarelo que havia em meu quarto mas minhas recordações a respeito são vagas e difusas e creio que somente muito mais tarde pude compreendê-lo. Foi ela, minha mãe, quem criou-me e educou-me, com o econômico auxílio da própria mãe e de uma irmã, que viviam na casa em frente a nossa e observaram-me e alimentaram-me até eu ter idade suficiente para ingressar no jardim de infância da escola na qual minha mãe lecionava.
Fui uma criança incomum. Excessivamente tímido, ora era presa de uma ansiedade extrema, ora dominado por uma profunda letargia. O futebol causava-me pânico, na verdade considerava de uma brutalidade atroz qualquer esporte ou brincadeira mais agitada, pelas infinitas possibilidades que estes ofereciam às crianças de provocar-lhes ferimentos. Sempre evitei instintivamente qualquer prática que pudesse comprometer minha integridade física. Por ter uma mãe professora, aos cinco anos já estava alfabetizado e descobri na leitura um refúgio para as vicissitudes do que a mim, me parecia o misterioso e perverso universo infantil. Este refúgio confortador tem desde então me acompanhado, acolhendo-me sempre em seus bosques frondosos e fazendo-me trilhar seus estranhos e irresistíveis caminhos de veredas que frequentemente se bifurcam, desembocando em labirintos mágicos onde a aridez cinzenta da realidade tem passagem permanentemente barrada.
Mas não se pode esconder para sempre, e foi aos oito anos de idade que deu-se nosso primeiro e inesquecível encontro. Ela, a infame, a maldita, a indesejada das gentes segundo o poeta levara nossa vizinha do lado vitimada por um galopante tumor no cérebro. Recordo-me vagamente do frenesi na rua, das mulheres sussurrando aos prantos, de minha mãe de preto, era uma criatura conservadora e antiquada, pobre mamãe, vestindo-me para irmos ao velório. E quando chegamos à capela, antes mesmo de cruzar a porta, eu soube pelo cheiro das velas queimando, pelos murmúrios lamurientos, pela solenidade que empestava o ar e fazia-o pesado como se à beira de uma estrondosa tempestade de verão, que minha vida nunca mais seria a mesma. Bati pé e não obedeci às recomendações de minha mãe, para que ficasse brincando nas cercanias. Agarrado a sua saia, com a cara enfiada entre as dobras, segui-a lentamente até o pequeno amontoado de gente de onde o choro vinha mais alto e angustiado, e enquanto ela oferecia condolências consegui meter-me por entre um mar de pernas e debruçar-me sobre aquela caixa de madeira infinitamente esquisita. A cara branca e balofa da vizinha, os olhos cerrados, os lábios arroxeados, os tufos de algodão nas narinas, a imobilidade pétrea que não era a do sono, definitivamente a morte não se parecia com o sono, e fiquei ali, apatetado, com as pequenas mãos crispadas na borda do caixão, olhando fixamente a cara pavorosamente branca e balofa da vizinha, por um longo tempo, até que minha mãe me puxasse pelo braço para irmos embora. Não, a morte não se parecia com o sono. A morte se parecia com uma pedra.
No dia seguinte, e nos subsequentes, fui acometido por atrozes dores de cabeça que me faziam chorar. Minha mãe dava-me aspirinas, chazinhos e mandava-me para a cama, era dessas mulheres pragmáticas que acreditam fervorosamente nessa tríade sagrada mas fiquei mal durante uma semana, uma angústia inexprimível oprimindo-me o peito e a cabeça quase a explodir. Chorava e repetia sem parar que estava morrendo. No sexto dia ela levou-me ao médico.
Pela primeira vez pisei em um consultório. Sempre fora excepcionalmente saudável e minha mãe também não era muito crédula sobre a medicina moderna. Aquele ambiente imaculado, de uma tranquilidade de oásis, por onde estranhos odores circulavam imediatamente me fascinou. O imponente senhor grisalho de avental branco que me examinou e fez-me uma porção de perguntas pareceu-me qualquer coisa muito próxima a um padre e deixei o local pisando em nuvens, como se finalmente houvesse conhecido os recônditos do sagrado. À soleira da porta de entrada cheguei a, sem que mamãe visse, ensaiar um sinal da cruz. As dores e a angústia haviam desaparecido milagrosamente e em meu íntimo já decidira, quando crescesse seria imponente e grisalho e usaria um avental branco e faria as pessoas se sentirem tão esfuziantemente bem como eu me sentia e continuei a almejá-lo mesmo depois da carraspana que me deu mamãe por tê-la feito desperdiçar a feira da semana`a toa já que o doutor reiterara minha saúde de ferro.
Cheguei, assim, à puberdade. Se fora uma criança incomum, taciturno e excêntrico eram alguns dos adjetivos que poderiam descrever o adolescente que me tornara. Mamãe acabou acostumando-se a minhas manias de doença, meus achaques de morte iminente e meus interesses um tanto mórbidos, e há muito já desistira de testar comigo os poderes da tríade. Também nenhuma outra vez consegui que gastasse suas economias levando-me ao “santuário” mas nem por isso abdicara do objetivo de tornar-me médico. Devorava toda e qualquer publicação onde encontrasse a mínima menção sobre doenças e anatomia, questionava obsessivamente minha avó sobre os males da velhice, li e reli incontáveis vezes Frankenstein (o gosto por esse prazer solitário só fizera crescer e passava longas horas trancado em meu quarto a desfrutá-lo, descobrira Poe e os simbolistas franceses). Acreditava piamente que somente a dignidade de uma vida dedicada à luta contra os malefícios físicos que há milênios assolavam a humanidade poderia espantar as nuvens sombrias e fatídicas que há também milênios, ou ao menos assim me parecia, pairavam sobre mim. Como já era de se esperar, não tive muitas namoradas, ao caráter excêntrico somava-se a irredutível timidez que nunca me abandonara. Após algumas poucas tentativas que se mostraram frustradas antes mesmo de poderem ser consideradas tentativas, resolvi concentrar minhas energias na tarefa hercúlea de realizar meu sonho.
Consegui, por mérito, ingressar na faculdade de medicina, para grande orgulho de mamãe, que mesmo sem dar-lhe ainda muito crédito corava-se e estufava-se de prazer antevendo-me doutor. As artimanhas do destino, porém, sempre dão o ar da sua graça, mais ordinariamente quando não esperadas ou desejadas, e vi meu sonho esvanecer-se como fumaça ao primeiro esguicho de sangue no avental pois assim que conseguiram reanimar-me tive a certeza de que o mesmo não resistiria à dissecação de cadáveres. Desde então, as nuvens não só não se dissipariam como se tornariam, a cada amaldiçoado dia de cumprimento da minha sentença a uma existência insípida de funcionário público, mais densas e ameaçadoras.
Mergulhei na neurastenia como um bêbado na garrafa de uísque. Esquistossomose, pleurisia, elefantíase, hanseníase, meningite, botulismo, fibrose, histoplasmose, tétano, tuberculose, peste, poliomelite, rubéola, oncocercose, raiva, difteria, hepatite, mononucleose, tracoma, apendicite, não havia enfermidade, viral, bacteriana ou congênita que nunca houvesse em mim se manifestado. Como um viciado que precisa de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito, só me sentia bem ao descobrir novas doenças e assimilar seus sintomas cada vez mais estapafúrdios, e preenchia com meu outro único vício as constantes licenças médicas que me ausentavam da repartição. Por ocasião de uma delas, em que distraía-me de uma suposta crise alérgica com as desventuras românticas do jovem Gilliat , ocorreu-me que já encontrava-me em uma altura da vida na qual talvez fosse chegada a hora de uma nova tentativa, e ocorreu-me ainda que nessa nova tentativa eu poderia perfeitamente unir o útil ao agradável. Já que o destino interrompera impiedosamente meu sonho, por que não poderia eu, então, casar-me com alguém que o houvesse realizado por mim? Alguém que conhecesse a fundo todos os males e enfermidades, que dedicasse sua vida a travar as terríveis batalhas contra a morte que a mim haviam sido negadas? Alguém que passasse seus dias no oásis imaculado e que com certeza me assistiria, no seu avental branco, e me faria sentir esfuziantemente bem até o fim de meus dias? Decidi que não havia a menor necessidade de que fosse imponente ou grave, tampouco grisalha...
Algumas semanas depois, durante as quais todas as tardes haviam sido gastas em incontáveis cafés acompanhados de muita leitura na lancheria do maior hospital da cidade e em desconcertar ainda mais minha pobre mãe, eu já havia descoberto que médicos só se casam entre si, ou pelo menos não com insignificantes funcionários de repartição pública, e também uma jovem e simpática auxiliar de enfermagem chamada Alice. Alice podia não estar no topo da hierarquia do exército sagrado mas era a fiel escudeira. Passava às voltas com comadres e injeções de analgésico mas também sabia fazer massagem cardíaca e ressuscitamento. E gostou de mim.
Após o casamento, fomos viver em um pequeno e aconchegante apartamento conjugado, para grande alívio de mamãe. Sinto ter o dever de relatar aqui que nos primeiros tempos de nossa união fui razoavelmente feliz e que Alice foi uma excelente esposa, as incoercíveis e sinistras forças que sempre me dominaram porém, assim creio-o eu, fizeram com que gradativamente nos afastássemos, e nos separássemos poucos anos depois. Não tivemos filhos, acho que ela secretamente o evitou, de modo que como aquele grande escritor, também não transmiti a nenhuma criatura humana o legado de nossa miséria. Alice se foi, e eu fiquei sozinho com o conjugado, minhas leituras, a repartição e as indefectíveis nuvens que me haviam adotado desde quando podia me lembrar. Assim foram passando-se os anos, escoando-se sem sequer me chamar a atenção, eu os assistindo com a indiferença cósmica do universo. Aos domingos levava sonhos recheados de creme para o café da tarde com mamãe, cada vez mais ágil e ativa numa proporção surpreendentemente direta a sua idade, e à noite me preparava, após apagar a lâmpada de leitura, para mais uma semana em absolutamente tudo igual às outras com exceção das novas e excitantes doenças que poderiam conduzir à morte e que por mim esperavam para serem descobertas.
A cada seis meses, no entanto, momentos de indescritível deleite me aguardavam, ou melhor, eu os aguardava na mais anômala das ânsias. Era o meu check-up semestral, quando me submetia a todos os exames de investigação médica possíveis e imagináveis permitidos pelo convênio de saúde. A coleta de amostras de sangue era mais ou menos como o carrossel, o eletrocardiograma a roda-gigante, o teste ergométrico a montanha-russa, sentia-me como uma criança no parque de diversões e a mais recente atração chamava-se tomografia computadorizada, uma espécie de trem-fantasma no qual eu tremia da mais pura emoção ao entrar e que encerrou com júbilo minha lista desse semestre. O passo seguinte era a consulta, comumente marcada para dali a uma semana, destinada à entrega dos resultados, de onde eu sempre saía num misto incompreensível de frustração, espanto e alívio após o aperto de mão e as felicitações por meu invejável estado de saúde.
Carcinoma hepatocelular. Pequeno nódulo neoplásico. Tratamento cirúrgico e quimioterápico, fase inicial assintomática, evolução agressiva, taxa de sobrevida de seis meses sem transplante, indefinida com. Ao longo de aproximadamente uma hora, durante a qual permaneci impassível escutando o médico desfiar seu rosário técnico do diagnóstico ao prognóstico sem alterar um décimo de nota no tom de voz, senti-me sobrevoando todas as longínquas e exóticas regiões do planeta que só conhecia através da literatura, senti-me voando leve como uma pluma até quase os limites da estratosfera, senti-me envolto pelo azul extraordinário do céu e nada mais, planando sobre os oceanos infindos acariciado pelas nuvens e depois tocando com as pontas dos dedos os picos congelados das montanhas mais altas do mundo, tudo isso enquanto meus olhos bem abertos fitavam a fisionomia séria e inexpressiva do médico e o ouvia desfiar seu rosário técnico. Percebi que este cessara porque o doutor calou-se de súbito. Concordei com todas as suas recomendações, apanhei as inúmeras folhas de papel com prescrições e requisições para nova bateria de exames e saí após o aperto de mão que dessa vez veio acompanhado apenas de palavras encorajadoras, e carregando no peito um alívio que dessa vez não veio acompanhado de frustração nem espanto. Era apenas um grande, maiúsculo, incomensurável alívio e a sublime sensação de ainda estar flanando.
Enquanto caminhava pela rua rumo ao conjugado e ao mesmo tempo flanava sobre as nuvens, pude enxergar, lá do alto, do céu, a mim mesmo caminhando pela rua, pequenino lá embaixo, e os fulgurantes raios de sol da tarde penetrando suavemente por entre uma multidão de nuvenzinhas cinzentas, quase névoas, que me cercavam e caminhavam comigo e começaram a lentamente desaparecer.
Encontro-me nesse preciso momento a olhar novamente o céu, dessa vez através de uma minúscula janela, uma janela de avião. Termino aqui meu relato contando-lhes que, daquela tarde no consultório médico, um mês já se passou, um mês do qual vivi cada segundo com a mais inaudita intensidade e na mais absoluta felicidade, fazendo coisas que jamais sonhara em fazer, que nem mesmo na leitura conhecera. Pular de pára-quedas fora uma delas, andar de barco outra, lamber picolé sob a chuva mais outra, ainda outra pagar a uma bela mulher por um momento de prazer puramente físico. Não revelei minha condição à mamãe ou a qualquer outra pessoa, solicitei uma licença por prazo indeterminado do trabalho. Não refleti muito sobre a transformação de ânimo que me assaltou desde então mas reflito agora, aqui sentado no avião a mirar o céu e terminando este relato, e percebo que a razão de todos os meus medos e angústias nunca foi propriamente a morte, a imobilidade perpétua de pedra que a mim sempre se apresentara com a cara exangue e balofa da vizinha. Finalmente percebo que o que sempre me afligiu não foi, como à maioria dos homens, a consciência de minha própria e inevitável finitude mas sim a perturbadora inconsciência de quando e como ela se daria. Desde que isso a mim foi revelado, como numa epifania, eu sinto que a venci, que venci indubitavelmente a morte. Segundo os budistas e os estóicos, dois grandes males pesam sobre a existência humana e a impedem de alcançar a verdadeira plenitude: a nostalgia pelo passado e a preocupação com o futuro. No ponto em que agora me encontro, o ocaso de uma vida morna e enfadonha de hipocondríaco, não há grandes recordações tampouco grandes esperanças, só há a satisfação de tê-la enfim vencido. Em poucos minutos o avião pousará no aeroporto de um país africano. Pela minúscula janela, os raios de sol iluminam intensamente o céu de um azul que eu não consigo me recordar de jamais ter visto, um céu completamente sem nuvens. Durante os próximos dois meses me dedicarei ao serviço voluntário em um orfanato.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Ostranenie à Hitchcock

Foi deixando uma trilha molhada pelo chão enquanto ia dançando do banheiro à sala. Oh, I can’t control myself! - Debbie Harry a plenos pulmões e no último do volume, e a água continuava a escorrer do seu corpo, agora sobre o tapete enquanto baixava a cabeça para enrolar a toalha sobre os cabelos sem nunca parar de saltitar ao ritmo da música. Adorava cantar e dançar sob o chuveiro, e continuar cantando e dançando nua e molhada pela casa depois do banho. Ainda mais com o calor atordoante desse verão apocalíptico, quarenta graus à sombra, só mesmo com muitas duchas frias ao longo do dia pra suportar. Foi até à cozinha, serviu-se de um copo de suco de laranja (ficou alguns segundos dançando diante da geladeira aberta, aquela fumacinha gélida acariciando-lhe o corpo) e então voltou à sala. Parou diante da janela, ainda cantarolando com a Debbie – call meeeeeee! – e observando, absorta, as atividades em andamento em algumas das mais ou menos cinquenta janelas que a sua visão conseguia alcançar. Entardecia preguiçosamente depois de mais um dia de sol tórrido, algumas poucas luzes acendiam-se tímidas, as suas estavam ainda apagadas deixando a sala numa cálida penumbra. Numa área de serviço uma mulher estendia roupas, num quarto um garotinho jogava videogame sozinho, parece que é só isso o que as crianças querem hoje em dia, vá entender, no seu tempo o bom mesmo era brincar no pátio com outras crianças, televisão e videogame ficavam na reserva pra dias chuvosos; numa sacada um casal tomava chimarrão, sentado naquelas odiosas cadeiras de plástico branco que para ela significavam a total ausência de qualquer compromisso estético mas afinal, que importância isso pode ter? Continuou ali, bebericando seu suco, cantarolando com a Debbie e observando, sempre se recordava daquele filme do Hitchcock quando chegava à janela e se deparava com aquela profusão de outras janelas nas quais a vida acontecia tão distinta e inexorável, gente morria, se mudava, crescia, se casava, cantava e dançava nua e molhada pela casa e ela continuava acontecendo, num fluxo eterno, todo mundo se observando sem realmente se ver. Achava-se enlevada por esses pensamentos, bebericando bucolicamente seu suco de laranja e passeando o olhar pelas janelas alheias quando um reflexo súbito atingiu em cheio seu rosto. Vinha da porta de uma das sacadas laterais de um prédio um pouco à esquerda do seu, um prédio comum de concreto e tijolinhos à vista que nunca chamara-lhe particularmente a atençaõ por qualquer motivo. Tentou focar com maior precisão a porta, a miopia e a distância porém dificultavam-lhe as chance de sucesso. Foi correndo na ponta dos pés até a mesa de jantar, largou o copo e colocou seus óculos. De volta à janela, percebeu que não havia se enganado, o reflexo continuava brilhando bem na sua direção. Apertou os olhos, debruçou-se o quanto pôde à janela, e pareceu-lhe então que um vulto escuro posicionava-se exatamente atrás do ponto de onde o reflexo espocava a pequenos intervalos. Invadida pela surpresa, ainda ficou ali por alguns instantes, de pé, estática e de boca aberta antes de dar um salto e esconder-se atrás da cortina de algodão cru orgânico. O reflexo... só podia ser de um daqueles troços, um telescópio ou um binóculo...e estava direcionado a sua janela... será que mesmo com a penumbra era possível que “ele” enxergasse algo? Será????? E quem, quem seria “ele”???? Fechou a cortina devagar, com a testa franzida, meio mole. Um filé de peixe com salada e uma pilha de livros sobre a cama esperavam-na.
Naquela noite não dormiu muito bem. Teve sonhos inquietantes, excessivamente surreais, num até cavalgava nua em um cavalo branco, igualzinho à Lady Godiva. Por mais de uma vez acordou encharcada de suor. Levantou-se muito cedo, antes do sol dar as caras, tomou mais uma ducha fria e ficou por alguns momentos parada à janela, bebericando seu café com leite. De roupão e em silêncio. As janelas, em sua grande maioria, ainda estavam fechadas, a sacada da noite anterior totalmente quieta e escura. O reflexo... Que saco, nunca se preocupara realmente com isso, com essa estória de privacidade. Esse era um luxo raro pra quem vivia em uma cidade grande. Raro e caro. Além do mais, pra alguém que almejava escrever, a vida através das mais ou menos cinquenta janelas visíveis da sua era um prato cheio. O problema tampouco era sua nudez vigiada. Um corpo nu, seu ou o de qualquer outra pessoa, sempre fora-lhe corriqueiramente natural desde a mais tenra infância, talvez porque em criança tomasse banho ora com os irmãos, ora com o pai, ora com a mãe, ora com a avó, era uma família numerosa onde banho, nudez e necessidades fisiológicas nunca foram sinônimos de tabu. Crescera, então, com essas tendências meio “hippies” na personalidade, certa vez até frequentara com tranquila desenvoltura uma praia de nudismo. Não, definitivamente também não era esse o problema. Vestiu-se e saiu, para trabalhar.
Caminhou, como de costume, a quadra que separava seu prédio do ponto de ônibus. Ao chegar à esquina, parou e olhou para o pulso da mão direita. A noite mal dormida fizera-a adiantar-se terrivelmente, se subisse no próximo ônibus chegaria mais de uma hora antes do expediente da agência começar. Ergueu os olhos para o prédio de concreto e tijolinhos à vista, a poucos passos dela. Bem, por que não? O figurino não era tão glamoroso quanto o da Grace Kelly, e tudo bem, era uma morena bastante esquentada no lugar da loira fria mas isso não era empecilho para investigar uma janela indiscreta... Chegou ao portão no exato momento em que um entregador de gás saía. Um sorrisinho amarelo – ah, obrigada, que bom, tinha mesmo esquecido a chave – entrou e rapidamente dirigiu-se, no pátio, ao corredor lateral direito do prédio, aquele onde deveria se situar a sacada infame. Avistou-a logo, era no primeiro andar, como o seu próprio apartamento. Um providencial conteiner de lixo encontrava-se exatamente abaixo dela, a cereja do bolo de qualquer assaltantezinho mais astuto e com o qual ela intimamente implorava a todos os santos que não fosse confundida, caso alguém a visse escalando a parede com a ajuda de uma ainda mais providencial calha. Em um minuto estava dentro da sacada, da pequena murada envidraçada viu seus sapatos e sua bolsa escondidos a um canto da lixeira. Respirou fundo pra tomar ar e coragem, o coração batendo tão forte e acelerado que mais parecia uma britadeira dentro do peito. Então finalmente virou-se para a porta.


Sentada no ônibus sufocante (daqueles sem ar-condicionado) que sacolejava um pouco, a caminho do trabalho, a cabeça apoiada no vidro da janela, nem ligava para a estranha e prazerosa sensação de dormência que isso sempre provocava-lhe na arcada dentária e que costumava intrigá-la desde criança. Só conseguia pensar em como a britadeira no seu peito parara, seu cérebro parara, tudo a sua volta parara e ficara suspenso por um período no tempo e no espaço que jamais conseguiria medir enquanto seus olhos piscavam ante o reflexo do espelhinho pendurado por um fio de nylon no batente da porta da sacada, que girava suavemente com a brisa... Sentia-se oca e patética, sabia que agora nunca mais teria a chance de descobrir qual havia sido realmente o problema... Também sabia que lá na agência iriam reclamar do seu mau humor, e aquele calor infernal... Não, nunca mais assistiria a filmes do Hitchcock.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Vila-Matas

Impossível não escrever aqui um texto que humildemente tente homenagear e agradecer ao escritor espanhol Enrique Vila-Matas. Adentrei em sua obra meio às avessas pois comecei lendo seu mais recente livro publicado no Brasil, "Suicídios exemplares", que é o quarto de uma seleção de títulos do autor lançada pela CosacNaify a partir de 2004. Fui automatica e inexoravelmente arrebatada já na primeira página. Devorei as outras 200 em três dias e voltei correndo à livraria para comprar o lançamento anterior, “Paris não tem fim”, outra experiência fantástica da qual não consegui desgrudar-me até a última página. Nova corrida à livraria para adquirir então “Bartleby e companhia”, esse sim já relativamente famoso e comentado por aqui. Ainda me faltam, da coleção brasileira, “A viagem vertical” e “O mal de Montano” e já há mais um título em vias de ser publicado, se é que já não o foi, “Doutor Pasavento” mas posso afirmar com a mais absoluta segurança que não preciso deles para colocar Vila-Matas lá, no meu Olimpo particular de escritores.
A sensação de identidade que tive com a literatura desse cara foi algo espetacular, algo que senti com não muitos escritores. Sinto o inefável prazer de leitora com, sem dúvida, uma infinidade deles: Borges, Calvino, Musil, Kafka, Tchekov, Dostoiévski, vá lá, uma infinidade. Mas o sentimento epifânico de comunhão estética e ideológica, aquele “putz, era exatamente assim que eu queria escrever porquê é exatamente assim que eu penso e sinto”, bem, essa leitura tântrica eu tive com poucos. Posso citar aqui, como exemplo, Cortázar. No primeiro parágrafo do conto “Aí, mas onde, como” ele descreve de maneira escandalosamente sublime aquela sensação matinal de invasão do sonho na vida:
A você que me lê, não lhe terá acontecido aquilo que começa num sonho e volta em muitos sonhos mas não é isso, não é somente um sonho? Alguma coisa que está aí, mas onde, como, alguma coisa que acontece sonhando, é claro, simples sonho mas depois também aí, de outra maneira porque mole e cheio de buracos mas aí enquanto você escova os dentes, no fundo da pia você continua a vê-lo enquanto cospe a pasta de dentes ou enfia a cara na água fria, e já enfraquecendo mas preso ainda ao pijama, à raiz da língua enquanto esquenta o café, aí, mas onde, como, grudado à manhã, com seu silêncio em que já entram os ruídos do dia, o noticiário do rádio que ligamos porque estamos acordados e levantados e o mundo continua andando.”
Sim, sim, sim, Sr. Cortázar, isso já me aconteceu um milhão de vezes mas jamais conseguiria descrevê-lo como o senhor o fez. Enfim, também posso citar Katherine Mansfield e aquela obra-prima da literatura que é seu maravilhos conto “A casa de bonecas” e alguns outros, mas não muitos outros e é por isso que humildemente homenageio e agradeço a Enrique Vila-Matas .Por sua escrita genial, que também me provocou a sensação orgástica e me fez levitar por alguns instantes e me deu uma vontade irresistível de imitar. Na qual também estou irremediavelmente viciada.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Vício 2

Não é de todo verdade que não tenho me dedicado à literatura contemporânea. Andei degustando uma boa leva. Os ótimos estadunidenses (credo, escrever ou falar isso sempre me dá estranhamento, o que é o poder do condicionamento imperialista) Raymond Carver, Charles D'Ambrosio e Cormac McCarthy, dos quais meu favorito é Ray Carver, infelizmente morto precocemente aos cinquenta anos, em 1988, e encontro-me em vias de encarar o dito dificílimo David Foster Wallace ( li um conto dele em um número da Arte&Letra, excelente revista literária de Curitiba). Impressionante como a geração beat ainda influencia a literatura estadosunidense (ai, de novo!). Também tenho gostado dos espanhóis Enrique Vila-Matas e Rosa Montero, ambos muito bons. Mas acabei de voltar de uma pequena rodada de consumo literário com "A volta ao dia em 80 mundos", do Cortázar, nas mãos, e imediatamente mergulhei nos cronópios. É, resistir ao vício parece estar além das minhas forças...

domingo, 24 de janeiro de 2010

Vício

"Tudo era questão de decidir.E, embora já estivesse decidido, continuou pensando por pensar, escolhendo e dando-se razões para sua escolha, até que o amanhecer começou a esfregar-se na janela, no cabelo de Ofelia dormindo, e o seibo do jardim recortou-se impreciso, como um futuro que coalha em presente, endurece pouco a pouco, entra em sua forma diurna, aceita-a e a defende e a condena à luz da manhã."
Trecho extraído do conto "Os passos no rastro", de Julio Cortázar, publicado no volume de contos Octaedro, o meu favorito dele. Cara, queria muito saber como é que se consegue escrever assim. Juro que o amanhecer se esfregando na janela, no cabelo de Ofelia dormindo, me provoca uma sensação quase orgásmica, uma indescritível onda de calor carregada de endorfinas que se espalha pelo meu peito e me faz levitar por alguns instantes. Leio, releio, volto a ler uma infinidade de vezes e descubro porquê invariavelmente volto a isso quando deveria me dedicar um pouco mais à literatura contemporânea. É que sou viciada nesse barato.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

As mulheres e a filosofia

Há alguns dias, ouvi de um professor universitário pós-doutorado que o cérebro feminino talvez não possuísse a aptidão necessária ao desenvolvimento de reflexões longas e complexas, ou seja, não teria a capacidade de filosofar.Bem, qualquer um que frequente a seção de filosofia de livrarias e bibliotecas pode perceber a gritante disparidade entre escritores do sexo masculino e feminino, sendo estes últimos quase ausentes das prateleiras, e a explicação para esse fenômeno sempre me pareceu tão indiscutivelmente óbvia que estarreceu-me tomar conhecimento de uma outra, tão estapafúrdia. Naquela mesma noite, assisto a um programa na TV onde a filósofa e professora da USP, Olgária Matos, discorre brilhantemente sobre a temporalidade. Ouvindo-a, deliciada, começo a lembrar-me de todas os livros da Susan Sontag, da Hanna Arendt, da Camille Paglia, da Simone de Beauvoir e de outras inteligentíssimas mulheres que eu já lera. Em número, sem dúvida, elas perdiam mas absolutamente equiparavam-se em qualidade de escrita e de pensamente, e a teoria do tal professor deixou de provocar-me a ira para levar-me ao riso pois soava-me então quase como uma piada, algo mais ou menos tão patético quanto afirmar a inferioridade da raça negra, por exemplo. A exígua produção intelectual feminina, observada em maior grau na área da filosofia, deve-se única e exclusivamente a uma milenar trajetória de discriminação, exclusão e opressão que tentarei resumir a seguir.

Diferenças biológicas básicas entre os gêneros determinaram as atividades por cada um deles exercidas, desde os primórdios. Assim, a superioridade física masculina e a condição de maternidade inerente à mulher posicionaram-nos naturalmente dentro daquela que, segundo Rousseau, é a mais antiga de todas as sociedades políticas, a família. Desse embrião desenvolveu-se o princípio da cultura de gêneros e suas distinções, que evoluiu para a sociedade patriarcal fundamentadora das civilizações humanas. Seria injusto afirmar que todas as civilizações, ao longo da história, trataram a mulher da mesma maneira. Aquelas, porém, sobre as quais foi calcado o mundo ocidental como o conhecemos não foram-lhe particularmente benevolentes. Comecemos com a Grécia Antiga, berço da tal filosofia e também da democracia. Lá, as mulheres eram desprovidas do direito ao voto e de quaisquer outros direitos políticos e jurídicos. Passavam a maior parte de suas vidas confinadas em aposentos exclusivamente femininos chamados "gineceu".Sua educação restringia-se ao aprendizado das tarefas domésticas, nas classes mais abastadas um pouco de leitura, cálculo e música. Os casamentos eram todos arranjados e sua finalidade primordial era a reprodução, ainda que houvesse funçaõ econômica devido ao dote.A inferioridade da condição feminina na sociedade grega pode ser comprovada através da leitura da "Política", de Aristóteles, que afirma que o macho comanda a fêmea e que, apesar de ambos possuírem as diferentes partes da alma, possuíam-nas diferentemente.Segundo ele, a mulher possuía a faculdade de deliberar, porém sem autoridade plena.Na mesma obra ainda cita Sófocles:"o silêncio dá graça às mulheres, embora isto em nada se aplique aos homens". Até mesmo Platão, que não era exatamente um misógino, posto que defendeu a igualdade dos direitos entre homens e mulheres na "República", e no "Banquete", deu voz e inteligência a uma mulher, Diotima, mostrou dubiedade na questão ao afirmar, no "Timeu", que as almas são originalmente masculinas: as que vivem indignamente seriam destinadas a um corpo feminino e, se teimassem em se comportar mal, transmigrariam para o corpo de um animal.Ou seja, a mulher estaria no meio do caminho, entre o homem e o animal. Mesmo as tragédias gregas, que costumavam retratar personagens femininas menos caladas e de caráter mais relevante, invariavelmente associavam-nas à rebeldia e à irracionalidade, como podemos constatar por exemplo na "Antígona"e na "Medéia".Ainda assim, muitas mulheres ousaram subverter os padrões estabelecido na sociedade grega, tornando-se filósofas, poetisas, escritoras e educadoras. Asiotéia de Filos ensinava Física na Academia de Platão, Hipárquia de Maronéia foi famosa pela cultura e inteligência e escreveu "Cartas e Tragédias". Safo de Lesbos era poetisa e educadora, sua obra é lida e estudada até hoje. Muito pouco do conhecimento dessas mulheres foi preservado, seus nomes quase suprimidos da história da filosofia. Durante o período da dominação do Império Romano não houve mudanças, visto que em praticamente tudo os romanos plagiavam os gregos. Maria, a Judia, é considerada a fundadora da alquimia e a responsável pela descoberta do ácido clorídrico. Hipácia, também de Alexandria, era uma importante matemática e filósofa e foi brutalmente assassinada, através de linchamento, por fanáticos cristãos, já como uma prévia do que viria a seguir.
Na Idade Média, a dicotomia corpo/alma foi exacerbada ao extremo pela doutrina judaico-cristã, associando a mulher ao corpo, ou seja, aos instintos e à natureza, e o homem à alma, ou seja, à razão, à cultura e à inteligência. Desse modo, a mulher foi condenada à perpétua detentora do pecado original. Horroriza-me pensar no número de mulheres queimadas como bruxas nessa idade das trevas, algumas por tentarem expressar sua voz e seu pensamento, a esmagadora maioria pelo simples fato de ser mulher. A partir do Renascimento o que renasceu mesmo foi a intolerância e a subjugação feminina. Kant afirmou que "às mulheres inteligentes, só lhes falta a barba para expressar melhor a profundidade de espírito que ambicionam". Schoppenhauer escreveu um sem número de absurdas maldades contra as mulheres, entre elas que "a natureza sempre mostrou uma grande preferência pelo sexo masculino" e também que "as mulheres não possuem qualquer talento ou sensibilidade para a música, a poesia ou as artes". Nietzsche os seguiu no menosprezo ao intelecto feminino, e por aí seguimos nós, sem tréguas. Em 1991, após um século repleto de conquistas forjadas muito mais pelas necessidades do sistema capitalista e pelas consequências de duas guerras mundiais do que pela boa vontade dos homens, ainda na árdua luta contra o preconceito, as mulheres viram-se obrigadas a criar seu próprio prêmio literário. O Orange Broadband Literary Prize foi fundado na Inglaterra e destina-se à participação exclusiva de escritoras, que não conseguiam chegar ao pódio dos mais importantes prêmios: o Man Booker Prize, que em 33 anos reconheceu apenas 12 autoras (também, vide o título!), e o Costa Prize, que reconheceu apenas 2 desde sua criação, em 1985.
Pensando em tudo isso, concluo que é mesmo muito fácil para homens, e também mulheres, acreditarem nessa história de "cérebro" pois fomos massacrantemente condicionados para isso ao longo de milhares de anos. Vejo agora na TV um documentário sobre meninas de 4, 5 anos de idade vendidas a prostíbulos no Camboja e na Índia, e pouco antes havia lido em uma revista um artigo sobre a situação deplorável das mulheres no Afeganistão, impedidas de trabalhar e estudar. Em maior ou menor grau, na Europa, na Ásia, na África ou no Brasil, a realidade contemporânea nos mostra que "filosofar", para um enorme número de mulheres, realmente ainda constitui-se em uma impossibilidade. Mas certamente não pelo motivo que aquele professor imagina.