segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Vila-Matas

Impossível não escrever aqui um texto que humildemente tente homenagear e agradecer ao escritor espanhol Enrique Vila-Matas. Adentrei em sua obra meio às avessas pois comecei lendo seu mais recente livro publicado no Brasil, "Suicídios exemplares", que é o quarto de uma seleção de títulos do autor lançada pela CosacNaify a partir de 2004. Fui automatica e inexoravelmente arrebatada já na primeira página. Devorei as outras 200 em três dias e voltei correndo à livraria para comprar o lançamento anterior, “Paris não tem fim”, outra experiência fantástica da qual não consegui desgrudar-me até a última página. Nova corrida à livraria para adquirir então “Bartleby e companhia”, esse sim já relativamente famoso e comentado por aqui. Ainda me faltam, da coleção brasileira, “A viagem vertical” e “O mal de Montano” e já há mais um título em vias de ser publicado, se é que já não o foi, “Doutor Pasavento” mas posso afirmar com a mais absoluta segurança que não preciso deles para colocar Vila-Matas lá, no meu Olimpo particular de escritores.
A sensação de identidade que tive com a literatura desse cara foi algo espetacular, algo que senti com não muitos escritores. Sinto o inefável prazer de leitora com, sem dúvida, uma infinidade deles: Borges, Calvino, Musil, Kafka, Tchekov, Dostoiévski, vá lá, uma infinidade. Mas o sentimento epifânico de comunhão estética e ideológica, aquele “putz, era exatamente assim que eu queria escrever porquê é exatamente assim que eu penso e sinto”, bem, essa leitura tântrica eu tive com poucos. Posso citar aqui, como exemplo, Cortázar. No primeiro parágrafo do conto “Aí, mas onde, como” ele descreve de maneira escandalosamente sublime aquela sensação matinal de invasão do sonho na vida:
A você que me lê, não lhe terá acontecido aquilo que começa num sonho e volta em muitos sonhos mas não é isso, não é somente um sonho? Alguma coisa que está aí, mas onde, como, alguma coisa que acontece sonhando, é claro, simples sonho mas depois também aí, de outra maneira porque mole e cheio de buracos mas aí enquanto você escova os dentes, no fundo da pia você continua a vê-lo enquanto cospe a pasta de dentes ou enfia a cara na água fria, e já enfraquecendo mas preso ainda ao pijama, à raiz da língua enquanto esquenta o café, aí, mas onde, como, grudado à manhã, com seu silêncio em que já entram os ruídos do dia, o noticiário do rádio que ligamos porque estamos acordados e levantados e o mundo continua andando.”
Sim, sim, sim, Sr. Cortázar, isso já me aconteceu um milhão de vezes mas jamais conseguiria descrevê-lo como o senhor o fez. Enfim, também posso citar Katherine Mansfield e aquela obra-prima da literatura que é seu maravilhos conto “A casa de bonecas” e alguns outros, mas não muitos outros e é por isso que humildemente homenageio e agradeço a Enrique Vila-Matas .Por sua escrita genial, que também me provocou a sensação orgástica e me fez levitar por alguns instantes e me deu uma vontade irresistível de imitar. Na qual também estou irremediavelmente viciada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário